“Na Vizinhança das Coisas”

03.10 - 14.11.2026

FASAM São Paulo

Na Vizinhança das Coisas

Visitar o ateliê de Gabriela Sacchetto é sempre uma pequena viagem. Eu, moradora do centro, atravesso a cidade até uma parte muito específica da Zona Oeste e, ao chegar, percebo uma mudança de escala: os edifícios rareiam, e a vista passa a se organizar por outras formas – casas baixas, muros, uma ou outra estrutura técnica entre os telhados.

Lembro-me de uma professora de quando, há mais de 15 anos, estudei geografia na universidade que dizia que, vista do alto do Pico do Jaraguá, São Paulo ainda era muito mais horizontal do que vertical. Não sei se a observação continua valendo entre tantas torres que a cidade insiste em erguer, mas penso nela diante dos fragmentos de paisagem presentes nos trabalhos de Gabriela. Às vezes são vistas mais reconhecíveis; em outras, a cidade aparece reduzida ao acúmulo de fachadas laterais de edifícios, ao recorte de uma torre ou à massa de um galpão. Há quase sempre alguma coisa interrompida pelo enquadramento, como acontece quando atravessamos a cidade e nunca a vemos inteira. Talvez seja por isso que o título desta exposição tenha ficado assim, sem verbo: Na Vizinhança das Coisas.

A paisagem, afinal, não é apenas aquilo que se oferece à visão. Em 1993, no ensaio The Temporality of the Landscape¹ , o antropólogo Tim Ingold propôs compreendê-la como resultado das atividades que, ao longo do tempo, dão forma a um lugar: construir, reparar, cultivar, ações que permanecem inscritas no espaço muito depois de terminadas. Para nomear esse entrelaçamento entre ambiente, tempo e atividade humana, Ingold formulou a ideia de taskscape, uma paisagem constituída pelas tarefas de quem a habita.

Essa formulação ajuda a entender por que uma torre, uma antena e uma parede cega podem interessar à artista: são vestígios de maneiras de construir e ocupar a cidade, mesmo quando nenhuma figura humana aparece na pintura. Alguém permanece no que foi erguido, remendado ou deixado de lado.

Essa presença humana se prolonga na própria materialidade dos trabalhos. Gabriela pinta sobre tacos, rodapés e outros fragmentos de madeira recolhidos, que já chegam ao ateliê com seus cortes, suas rachaduras e seus formatos. Há algo de muito preciso no encontro entre esses suportes e as imagens que recebem, quase como se determinados pedaços de madeira esperassem a paisagem capaz de caber neles: a inclinação de uma tábua encontra a de um telhado, e a imagem se constrói a partir do que o suporte já é, não simplesmente sobre ele.

Em O Apetite de Ver (2025)², a filósofa Marie-José Mondzain escreve que a aposta de uma imagem não está no espaço que ela ocupa, mas no tempo que ela permite habitar. Existe uma indústria da imagem que quer mostrar tudo, saturar o olhar, não deixar nada por desejar. Mondzain prefere aquelas que guardam alguma coisa, que resistem à satisfação imediata: as mais apetitosas, escreve, são justamente as que não produzem saciedade, porque são elas que dão sabor ao mundo. As pinturas de Gabriela pertencem a essa economia. Pequenas, pedem aproximação e uma relação concentrada com quem as observa, longe da lógica de imagens feitas para se impor rapidamente.

Atenção é uma palavra que volta com frequência às notas de trabalho de Gabriela, mais como procedimento do que como tema. Seus trabalhos partem de situações comuns encontradas nos deslocamentos pela cidade, às quais ela decide conceder outra duração. Simone Weil definiu a atenção como uma das formas mais raras e puras da generosidade, distinta do esforço que costumamos associar à concentração. Na pintura de Gabriela, essa atitude se traduz na escolha, dentro de um campo aparentemente banal, daquilo que pode se tornar imagem.

Muitas dessas figuras surgem durante caminhadas sem destino certo, quando o próprio percurso vai revelando o que há para ver, sem que seja possível prever. A cidade aparece, então, por partes: uma esquina altera o campo de visão, uma construção surge atrás de outra, uma forma chama atenção no meio de um trajeto conhecido. E talvez seja justamente a repetição desses percursos que transforme proximidade em vizinhança. Os mesmos lugares voltam a ser atravessados, certas estruturas passam a integrar um repertório, e aquilo que parecia indiferenciado começa a adquirir contorno e familiaridade.

Essa forma de se relacionar com um lugar se torna ainda mais evidente quando Gabriela se desloca para outro contexto. Durante uma residência na Dinamarca, encontrou uma paisagem e condições de luz bastante distintas, que aparecem nas pequenas pinturas realizadas ali: os ocres e tons terrosos dos trabalhos paulistanos dão lugar a brancos mais frios e a verdes que se aproximam do cinza. A mudança mostra que sua pesquisa não depende de uma iconografia específica de São Paulo, mas de uma maneira de observar e responder às condições de cada lugar.

A mostra reúne cerca de 30 trabalhos novos. Na parede principal da exposição, as pinturas-objetos aparecem separadas por intervalos regulares, numa disposição que preserva a autonomia de cada uma sem convertê-las numa paisagem contínua. A proximidade produz relações, ao mesmo tempo que os vazios mantêm as distâncias entre elas.

Volto, então, à travessia até o ateliê e à lembrança do Pico do Jaraguá. Talvez a horizontalidade que reconheço no trabalho de Gabriela seja menos uma característica de São Paulo do que uma maneira de escolhê-la, distante dos marcos que costumam condensar a imagem pública da metrópole. Suas pinturas se aproximam de medianeras, túneis, torres, partes da cidade que permanecem à margem de qualquer imagem totalizante.

Na Vizinhança das Coisas se constrói assim, no espaço entre as coisas e nas relações que se formam quando elas são aproximadas: uma paisagem e um pedaço de madeira, aquilo que se encontra durante um percurso e aquilo que permanece depois dele. Talvez a vizinhança seja justamente isto: uma proximidade que não apaga as distâncias, mas permite que coisas distintas permaneçam, por algum tempo, umas ao lado das outras.

¹ INGOLD, Tim. The temporality of the landscape. World Archaeology, v. 25, n. 2, p. 152-174, 1993.

² MONDZAIN, Marie-José. O apetite de ver. Tradução de Bárbara Mol. Belo Horizonte: Edições Chão da Feira, 2025. (Caderno de Leituras, n. 183). Disponível em: Chão da Feira – O apetite de ver. Acesso em: 17 set. 2026.

Ana Roman

curadora

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