“Enquanto o mundo dorme”
23.05 - 04.07.2026
FASAM São Paulo
Enquanto o mundo dorme
curadoria Yago Toscano
“O incompreensível vento do destino poderia, ainda que
apenas em sonho, arrastá-los” – Arthur Schnitzler
Um peregrino – assim teria Adão nomeado essa presença furtiva que, anônima, nos empresta seus olhos e nos situa diante das planícies do vasto conjunto de pinturas que aqui observamos. Peregrino é o que, ou aquele que, em primeiro plano, vagueia e percorre as topografias incertas dessas paisagens. Sem revelar seu nome e ao que veio, ele desorganiza o campo semântico dessas pinturas, nos faz vislumbrar a sinuosidade com a qual acaricia a soleira da tela e, indestinado, nos conduz a hemisférios formais radicalmente opostos.
Não é incomum encontrá-lo em representações memoráveis ao longo da história da arte: ora manifestado na figura da divindade a oeste, em O Nascimento de Vênus, de Botticelli; ora encarnado na figura da mulher a leste, em O Nascimento de São João Batista, de Ghirlandaio. Antes de decifrá-lo é preciso observar que nos chega pela periferia do quadro e faz nascer uma inquietação, perturbando a homogeneidade da pintura com seus efeitos, que resultam em movimentos cromáticos desordenados e em esquemas enigmáticos – e deslocam, de um lado a outro, as nuances dessas figurações imprecisas. A essa força expressiva, que também chamamos de aragem ou viração, damos igualmente o nome de vento.
No conjunto de pinturas que Adão apresenta em sua primeira exposição individual, vemos encarnar esse vento, expresso nos gestos pictóricos do artista, os quais se desdobram, num primeiro momento, de sua pesquisa em torno da imagem. É certa a predileção de Adão por imagens oscilantes, por aquelas que não formam limites. Nelas não há geografia; suas bordas são indefiníveis, intermináveis. Adão dedica sua prática de pintura a esse movimento torácico do mundo que faz tremer e contorcer bordas e limites das imagens. Ainda que compareça a partir de uma linha do horizonte indecisa, sutil e rarefeita, esse sopro invisível significa demasiada presença.
Há, na pintura de Adão, uma inclinação a essa imprecisão – àquilo que habita a zona instável entre o mistério do indiscernível e o que, por vezes, chamamos descuidadamente de real. Seus campos cromáticos intensificam essa indefinição: tons frios de azuis e verdes profundos propagam-se de um lado a outro e, nessas massas atmosféricas e escuras, deixam entrever silhuetas misteriosas, elementos que intuímos serem vegetações ou reminiscências arquitetônicas. Já vagas quentes de ocre, vermelhos alaranjados e amarelos oferecem ao olhar imagens mais definidas, detendo-se em figurações precisas, com a objetividade de uma clareza diurna.
Contudo, esse vento incontornável que percorre as pinturas inquieta esses campos de cor e suas temperaturas; dobra galhos, move pedras e nuvens; e faz com que o mistério das indeterminações alcance inclusive aquilo que considerávamos uma forma familiar, produzindo, assim, estranhas miragens. Trata-se de um fenômeno análogo ao chamado efeito Fata Morgana, produzido pelas massas de ar frio e quente que, ao se separarem, refratam a luz e fazem com que, na distância, a definição do mundo se dissolva em imagens trêmulas e suspensas em suas realidades dobradas. Daí o caráter místico das pinturas – e convém observar seus títulos (O Eremita, Caramujo, Eclipse, Finda Noite, etc.) para notar o interesse de Adão pelo movimento particular das coisas.
Essas imagens, animadas por esse incompreensível vento do destino, percorrem os espaços representacionais, peregrinam pelas fronteiras da figuração e, por este motivo, assumem feições dessemelhantes. Caminham, portanto, nos limites indistintos das formas para que, em seguida, sigam rumo a outras aparências. Antes de despedir-se das coisas caminhantes, é preciso compreender a topografia deste mundo de tremores que Adão produz, compreender este vento que carrega não apenas a capacidade de imaginar, mas que sopra na superfície do quadro a capacidade de sonhar as realidades que suas imagens tornam possíveis.
Ao contrário daquilo que foi construído e instituído desde o Renascimento – com a fundação de um ponto de vista mononuclear, a partir do qual um ponto de fuga se estabelece na linha do horizonte –, a paisagem não é concebida, aqui, como lugar para o qual o olhar se destina; ela é um desamparo. O juízo é quem se perde: o olho está cativo diante dela, produzindo um julgamento muito diferente daquele que se tinha da paisagem enquanto estilo e motivo de pintura. Essas pinturas desolam o olhar, suspendem o espírito de seu sujeito e fazem coalescer realidade e ilusão, a partir de suas extremidades transfiguradas. Coisas se contorcem, recusam um enquadramento óbvio e o limite do quadro, fazem tremer as bordas desses mundos. Figura e fundo se amalgamam, se estranham e se acariciam em reciprocidade. E talvez, por ser tão afeito a esses mistérios inquietos, que Adão tenha escrito, em uma de suas cartas: “[...] as pedras e as árvores já se moveram um pouquinho enquanto você dormia”. E nessa hesitação, as imagens se manifestam inquietas, misteriosas – e nós, nós também não?

