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ELOGIO DAS SUPERFÍCIES

Sabe-se que, a fim de colher alguma inspiração, Amadeo Lorenzato (1900-1995) costumava fazer longas caminhadas pelos arredores de sua casa em Belo Horizonte. Das deambulações saíam ideias, esboços, desenhos, fragmentos de memória e paisagem que migravam pouco a pouco para a pintura. Lorenzato pintava a síntese das banalidades que encontrava: topografias tortuosas, a terra avermelhada, um punhado de frutas, motivos vegetais, gente para cá e para lá. Nenhum grande evento, nada extraordinário. Ao contrário, sabia como poucos impregnar a paisagem do gosto pelas coisas singelas e miúdas. Lorenzato não pintava as coisas para que as víssemos — antes pintava para que víssemos como ele via.

Algo parecido com esse procedimento está também presente na obra de Alfredo Volpi (1896-1988). O “insular do cambuci”, como diria o crítico Mário Pedrosa, era afeito aos hábitos simples e à vida quieta. Suas obras, de contribuição inestimável para a arte brasileira, são capazes de nos transportar para o imaginário da arquitetura popular e simultaneamente nos suspender no tempo e no espaço. O efeito lavado da têmpera, a “profundidade rasa” de suas transparências, há ali todo um gesto alheio à velocidade e produtividade neoliberais hoje vigentes. Resta um fundo de calmaria e repouso nas suas fachadas, mastros e bandeirinhas tão descomplicadas.

Com ambos, Lorenzato e Volpi, partimos do pressuposto de que toda paisagem é uma construção subjetiva e em constante transformação, e que refletir sobre o ambiente que nos circunda é sobretudo compreender nossos modos de ver. É nessa direção que a exposição Elogio das superfícies se organiza. Aqui, investigamos relações sutis entre forma e paisagem, através de diálogos entre obras de artistas representados pela Arte FASAM Galeria e obras que compõem o seu acervo.

Nosso percurso está povoado de certo fascínio por relevos, texturas e uma diversidade de formas orgânicas no diálogo entre o individual e o coletivo; o íntimo e o público. Em alguns casos, as formas da paisagem são componentes que afirmam uma identidade cultural, o pertencimento a um determinado lugar, a nostalgia das memórias longínquas da infância ou a projeção de outros mundos possíveis (é o caso de Ana Hortides, Lilian Camelli, Maria Leontina, Maria Andrade, Arthur Pereira e Ursula Tautz). Noutros, o entorno é mero pretexto para pôr em prática as mais variadas experimentações pictóricas, dando lugar a sínteses e abstrações sinuosas repletas de gosto decorativo, sintoma de ludismo e vocação lírica (vejamos Thamyres Donadio, Cela Luz, Leonardo Luz e Solange Pessoa). Não é raro também que muitas destas obras nos sugiram uma experiência sinestésica. Diante delas, acompanhamos volumes, incisões, curvas e reentrâncias que evocam pólens e aromas, ou sabores macios e ásperos. Há ainda Isis Gasparini, para quem caberiam os versos de Orides Fontela: “Na manhã que desperta / o jardim não mais geometria / é gradação de luz e aguda / descontinuidade de planos”; e Julia da Mota, que parece herdar o legado volpiano com a mesma brandura.

Se o gênero da paisagem esteve por muito tempo vinculado ao que há de sublime e monumental, as imagens que aqui vemos reivindicam o horizonte no que há de onírico, menor; e chegam inclusive aos domínios íntimos da natureza-morta. São composições que desafiam nossa familiaridade, já que estão descoladas de qualquer geografia. Um convite para sonhar e fabular.

 

Pollyana Quintella